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Oceano de Mim

Atualizado: 12 de jun. de 2025


Da depressão ao renascimento.


A fênix representa muito bem o que aconteceu comigo. Uso essa imagem como símbolo do meu renascimento.

Sim, eu renasci. E não foi apenas uma vez.

Houve um momento específico, entre uma tristeza silenciosa e um grito por socorro, em que algo — quase mágico — aconteceu.

Eu sei que não foi mágica... mas juro, pareceu. Talvez um milagre divino.


Naquele tempo, eu estava dentro de um relacionamento intenso e tóxico. Lutava para me libertar daquilo que me aprisionava. Pedia ajuda a tudo em que eu acreditava — e até ao que eu nem acreditava tanto assim, mas precisava acreditar.


Vamos do começo.


Cresci em uma cidade pequena e mais reservada. Minha adolescência foi vivida com intensidade, porém conturbada, marcada por tentativas de descobrir quem eu era e quem eu queria ser. Sempre me expressei muito através das roupas, maquiagens, acessórios. Entre a pressão de ser a “figura ideal” aceita pela sociedade e o desejo de ser fiel a mim mesma, percorri diversos caminhos tentando me encontrar.


Costumo dizer que vesti muitas roupagens ao longo da vida — e encarnei com perfeição os personagens que criei para ser aceita.

De patricinha a emo, do cabelo loiro ao cabelo preto, de franja reta no meio da testa a piercing na boca, de tatuagem no pé ao cabelo azul ainda no ensino médio.

As mudanças causavam estranhamento. Os olhares julgadores sussurravam nos corredores da escola.


E para completar, eu era conhecida como "a filha da fulana", já que minha mãe era bastante conhecida na cidade. Isso gerava um peso. Eu “tinha que” cuidar do que falava, de como me vestia, de como andava... A roupagem de patricinha parecia mais aceitável do que a de emo.


Oscilei entre esses personagens algumas vezes.

Julgada de um lado e do outro.


Lembro de ir a eventos em cidades vizinhas com amigas que mantinham uma imagem mais “aceitável”. E eu, naquele personagem alternativo, expressando minha dor e tristeza através do delineado forte nos olhos e roupas pretas.

Hoje, percebo que talvez eu estivesse expressando um luto interno — inconscientemente.


Esses eventos não eram feitos para quem sente demais. Eram feitos para rir, dançar e encher a cara. E eu, mesmo me sentindo parte daquele lugar, acabava me sentindo rejeitada.

Não, não era coisa da minha cabeça.

Apontavam o dedo. Riam. Cantavam músicas emo da época na minha direção.

Lembro das minhas amigas caminhando à frente, tentando se afastar de mim, e uma delas disse:

"Credo, vou fingir que não conheço." — e riu.

Não a culpo, nem julgo. Era o momento.

Talvez eu realmente as envergonhasse. (risos)


Foi nessa fase que conheci uma amiga — o alternativo nos uniu. Logo éramos só nós duas, em uma cidade pacata, indo para cidades vizinhas em uma van que passava para nos buscar.

As pessoas da van? Autênticas. Sentiam demais. Ousadas. Poéticas.

Eu me sentia em casa.


Conheci gente querida. Música boa que ouço até hoje. Alguns romances também.

Bons tempos.


Mal sabia eu que ali, no meio de tudo isso, já vivia a depressão.

Por fora, tudo era colorido. Por dentro, melancolia.


Ali, eu podia me abrir. Falar sobre o que sentia e ser compreendida — não julgada. Talvez porque aquelas pessoas também se identificassem com minha confusão interna. Talvez.


Não lembro exatamente quando comecei a me distanciar desse mundo. Acho que foi após o fim de um relacionamento. Me afastei de todos, sentindo o chamado para me reencontrar em outro lugar, com outras pessoas, com outras versões de mim.


Sempre muito questionadora, refletia sobre tudo.

Meus cadernos eram preenchidos com escritas dolorosas, às vezes até perturbadoras.

A mente de um adolescente pode ser criativamente perigosa.


Mergulhei em tudo o que sentia, sem saber medir a profundidade desse oceano.

Vi a escuridão. Me afoguei muitas vezes. Sobrevivi.

Mas não encontrava a encosta.


Tudo era neblina.


Às vezes eu boiava sobre um oceano calmo, porém frio e sombrio. Outras vezes, a tempestade me arrastava para o fundo.

Ficava lá até quase não conseguir respirar.

Depois, de algum modo, voltava à superfície.

Intenso. Brutal.


Com o tempo, o sol começou a aparecer.

Mas, acostumada à escuridão, a luz doía.

Eu me escondia para não ser tocada por ela.

Viver no oceano escuro parecia mais fácil.


Com o tempo, construí uma caverna submersa.

Aprendi a respirar embaixo d’água.

Aprendi a enxergar — mesmo que pouco — no meio da escuridão.

Me acostumei ao frio das águas profundas.

E vivi anos ali, mais na caverna do que na superfície.


Na superfície, eu me sentia despida, vulnerável, intimamente invadida.

Como se todos os olhares estivessem voltados pra mim — mesmo que não estivessem.


Eu só queria me esconder. Fugir. Desaparecer.


E tentei. Algumas vezes.


Mas, por intervenção divina, não consegui.

Lembro da última vez no hospital. Acordei, olhei ao redor e respirei.

Chorei. Sorri. E disse:

“Ok... acho que não vai ser dessa vez, né?!”


Depois de tantas idas ao fundo do poço — e voltas — a gente para de se levar tão a sério.

Não se apega tanto aos "probleminhas" do dia a dia.

Não se importa mais com o que estão dizendo sobre você.

Nem com a roupa que você escolheu vestir.

Você simplesmente... vive.


E é por isso que escrevo aqui, de peito aberto.

Expondo dores já vividas, que hoje são apenas memórias de uma caminhada intensa e sagrada.

E eu agradeço. De verdade.

Porque hoje entendo o quanto cresci. O quanto amadureci.

A dor foi um mestre — e eu fui sua aprendiz.


Hoje eu sei o que é estar no fundo do poço.

E por isso eu também sei: é possível sair dele.


Afinal, como diz uma tatuagem minha:

“Tudo passa...”

Nada é eterno.


E se estou aqui pra viver, então aceito essa missão.


Hoje, quando sinto que um novo processo se aproxima, ressoando com algo dessa história antiga, olho com outros olhos.

Vou com alma e presença.

Me entrego ao que precisa ser revelado. Me acolho. Me reservo e me preservo.

Sou uma detetive, uma analista, uma curadora de mim mesma.

E ah… como eu amo isso.


Aprendi que sentir demais não é um erro, é um convite.

A depressão me ensinou a olhar para dentro com gentileza.

Se você também está nesse lugar, saiba: você não está só. E há caminhos.


Viver nem sempre é leve, mas precisa ser verdadeiro.

Se há dor, que ela seja acolhida.

Se há depressão, que ela seja olhada com responsabilidade e amor.


E é assim, que termino esse relato de um lugar amororo e vulnerável. ... Cheila

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